Desde os primórdios da Humanidade que os jogos com bola fazem parte da nossa herança.
Ao redor dos praticantes, sempre se juntaram assistentes para apreciar, aplaudir e incentivar o melhor desempenho.
Nasceram pinturas corporais, enfeites, ritmos, danças e cantos, cores identificativas, gravuras e pinturas rupestres.
O apoio manifestava-se como elemento do “jogo”, mecanismo de pertença, “treino” para a vida.
Havia uns que eram mais admirados que outros, em função dos seus movimentos, capacidades e talentos.
Com o tempo, as atividades evoluíram, foram moldando o seu destino, foram-se individualizando.
No medieval “Soule” ou no renascentista “Calcio”, eram habituais as multidões, a utilização de vestuário com cores específicas e canções com ritmos distintos.
O futebol herdou essa característica que marca a sua eternidade e persistência no tempo.
Aplaudir, ocupar espaços comuns, cantar, usar cores, bandeiras e cachecóis, apelando a uma tradição e mística próprias, é um desafio de criatividade em todas as épocas.
Assim, surgiram alguns comportamentos: uns de convivência saudável entre os clubes, outros de violência e agressividade que originam conflitos.
Desportivismo é sempre mais potenciador de desenvolvimento do que manifestações de violência, racismo e xenofobia.
Aglomerando multidões, o futebol acaba por ser vítima de excessos condenáveis e exteriores ao desporto.
Nos últimos anos, as claques tornaram-se uma realidade indesmentível.
Nos clubes foram surgindo identificações com animais: dragões, leões, águias, panteras, castores e muitos outros, assim como outras formas – Mancha Negra, Alma… – reforçando aspetos que os adeptos consideram melhor reveladoras das “diferenças”.
A paixão do adepto requer dedicação exclusiva, acompanhamento e informação atualizadas, bem como coreografias inovadoras e canções entusiásticas.
Ser adepto é ter e revelar paixão!
Cada clube e cada modalidade mobilizam uma verdadeira, intergeracional e transversal comunidade de afetos.
Se por um lado, trazem cor, arte, história dos clubes, incentivo aos jogadores, em outras situações podem acabar por se tornarem protagonistas de um jogo (por razões inadequadas) em que deviam ser uma parte mas nunca o essencial.
A violência (infelizmente, com excessiva e injustificada mediatização) acaba por ser um elemento prejudicial ao desporto.
Os adeptos não devem usurpar funções...
A excelência de um lance especial, daqueles que nos devolvem a magia do jogo, nunca pode ser desprezada mesmo que executado por um adversário… Teria sido melhor se fosse por um dos “nossos”; mesmo assim há que reconhecer o mérito.
As crises sociais, económicas e políticas muitas vezes potenciaram condições para excessos que acabaram em tragédias graves... Mas também já aconteceu o futebol conseguir aquilo que a diplomacia não tinha obtido – a paz entre países e solidariedades universais.
É essa facilidade em permitir que o talento dos ídolos reforce consensos, através dos seus comportamentos e atitudes, que ajuda a relativizar resultados e a valorizar momentos de genialidade únicos.
Por isso, deveria ser exigido como tema de reflexão para os decisores institucionais, saberem gerir as comunidades, enquadrar as paixões, criarem um plano que preserve valores essenciais do futebol e do movimento associativo e nunca se limitarem a projetos exclusivamente economicistas, mas vazios de sentido.
Só com decisores competentes, que sintam e vivam a paixão do jogo, se poderá construir um modelo que procure assegurar qualidades e potencialidades e limitar tudo aquilo que possa prejudicar o futebol.
Precisa-se de competência, regulamentação eficaz e ajustada e um compromisso envolvendo todos os intervenientes (incluindo os órgãos da comunicação social) para salvaguardar os interesses do futebol como jogo, como arte, como atividade económica sustentável, como herança cultural.
Violência (verbal e não só), clima de suspeição constante, indícios de corrupção, “negociatas estranhas”, são normalmente adversários que têm de ser diariamente vencidos, de forma categórica.
Se nas respetivas instituições, os atuais decisores do futebol não forem capazes de o fazer, devem ser, de imediato, substituídos por quem seja mais qualificado e mais capaz de o conseguir… pode ser mesmo uma questão de sobrevivência.
Num jogo de futebol é assim que acontece, com toda a naturalidade!
A paixão deve ser vivida com intensidade, com a presença dos golos maravilhosos que o talento e a liberdade nos garantem.
